Serigrafia é um antigo processo de decoração de objetos e de reprodução de peças artísticas; e o processo, ele mesmo, uma arte praticada em oficinas de acadêmicos e artesãos, mas também ganha-pão para muitas famílias que instalam o necessário e suficiente maquinário na garagem... e haja tinta pro rodo na estamparia de camisetas, bonés e brindes! E entre a alta cultura universitária e o artesanato existe uma Serigrafia diferenciada? A discussão é velha e longa com tendência a não acabar, porque todos os velhos processos de impressão e gravação de imagens foram reforçados com as tecnologias de ponta desenvolvidas para a Computação Gráfica. A professora Mariana d´Almeida y Piñon assegura que “a Serigrafia é uma tecnologia que se sustenta por ela própria enquanto a Moda e o Brinde tiveram valor cultural nas mãos de artistas universitários e de artesãos”, e mais ainda, na opinião da empresária têxtil-serigrafista Mariza de La Paz, porque “entre todos os sistemas de gravação ou estampagem de imagens, a Serigrafia permite o contato direto entre o instante criativo e a alterações a fazer com as ferramentas, ou seja, quem trabalha o processo e se utiliza da imaginação para gerar outras imagens e até novas cores ou traços, sabe que tem no sistema opções de suporte técnico”. Eis nos diante de “um universo que nos leva somente a reproduzir uma obra de arte, ou a recriá-la; ou, a partir das ferramentas convencionais da estamparia localizada, obter outras formas de expressão artística [...], um universo que é a ´cara´ da Serigrafia”, como escreveu o poeta J. C. Macedo, a propósito do professor e serigrafista Alexandre Ferreira, da artista Maria Amélia Arruda B. de Souza Aranha e da artesã-serigrafista Maria Augusta Lucena. A verdade é que a Serigrafia, enquanto método de estamparia com ferramental simples para artesanato, mas ao mesmo tempo complexo na execução de obras artísticas em reprodução fidedigna, como na elaboração de peças de sinalização e de publicidade, é um trabalho de grande valor artístico-econômico quando feito com aquela paixão da ´obra feita por quem sabe´... e isso acontece no ateliê da faculdade ou no fundo de quintal do artesão, como na estamparia sofisticada e cheia de laboratórios. Porque muitas empresas serigráficas brasileiras nasceram das mãos de quem bateu tinta em latões amassados, utilizou borracha cortada de chinelo para puxar a tinta, ou fabricou sem parâmetros absolutos os equipamentos para estampar, preparou emulsão queimando restos de celulóide de filmes de Cantinflas e Carlitos, entre muitos e muitos exemplos, criou-se a imagem de uma ´Serigrafia de fundo de quintal´. O que, historicamente, está errado, porque muitas empresas de ´fundo de quintal´ produzem trabalhos de alta qualidade em tod o mundo, e também no Brasil. Cabe a todas as pessoas que trabalham com Serigrafia mostrar que este processo é tão acadêmico quanto artesanal e industrial, e que a sua excelência técnica e artística só depende de cada serigrafista. É hora de cada serigrafista pensar que um conceito tão depreciativo como ´fundo de quintal´ é obra do próprio mercado, logo, para ele não gerar tendências mais depreciativas é preciso agir em prol de uma Cultura própria. João Barcellos